histórias de pessoas comuns

Pedro da Rocha

Da Nossa Enciclopédia

Pedro da Rocha (Brusque, 1940) nasceu em uma comunidade agrícola do interior de Santa Catarina. Ainda criança, começou a trabalhar na lavoura com a família. Aos 17 anos, após a morte do pai, mudou-se para Blumenau, cidade onde constituiu família com Marta da Rocha e passou a maior parte da vida.

Trabalhou inicialmente em uma empresa de artefatos de madeira e, depois, na Cremer, onde atuou no beneficiamento de fios até a aposentadoria. Fora das fábricas, aprendeu pela observação a trabalhar com carpintaria e construção. Com Marta, ergueu as casas em que a família viveu e criou os três filhos: Marisa, Mauro e Marinho.

Infância e família de origem

Pedro foi o penúltimo dos sete filhos de Armindo e Dealtina da Rocha. Dois de seus irmãos faleceram ainda crianças. Entre os demais estavam Augusta, Maria, Domingos e Luiz.

De Armindo, Pedro reconhece a importância de fazer bem-feito cada trabalho, fosse a afiação de uma ferramenta, fosse o plantio e o cuidado com a roça. De Dealtina, recebeu os princípios da religião católica e a disposição para ajudar e trabalhar em conjunto. Ambos participaram da formação dos valores que Pedro levou para a vida e para seus relacionamentos.

Augusta esteve sempre muito próxima, ocupando, de certo modo, o lugar de uma segunda mãe. Maria saiu cedo de casa para trabalhar em residências, primeiro no interior e, mais tarde, em Blumenau. Domingos tornou-se um de seus grandes amigos e companheiro em muitas lembranças da juventude.

Pedro sempre valorizou a convivência familiar, fazendo dos cunhados verdadeiros irmãos. José Emílio, casado com sua irmã Augusta, foi uma dessas pessoas queridas. Esteve presente em muitas histórias da vida de Pedro no interior. Durante o período em que Augusta e José Emílio moraram em Navegantes, os dois cunhados chegaram a ir juntos a Itajaí, cidade vizinha, para vender o que tinham e trazer mantimentos para casa. Essas viagens fazem parte das lembranças que Pedro ainda gosta de contar.

No campo, o trabalho dos filhos começava cedo. Em uma família com poucos recursos, cada ajuda tinha valor. Pedro participava do plantio, do cultivo e da colheita. Entre as histórias que gosta de contar está a da cana-de-açúcar: o corte, a carroça, os cavalos e o transporte até a usina. Domingos aparece muitas vezes nessas lembranças, dividindo com ele o esforço de gerar recursos para a alimentação da família e para o pagamento das terras arrendadas.

Pedro costuma dizer que a vida naquele tempo era boa. Fala do respeito e do carinho conquistados dos mais velhos, mesmo quando o trabalho era pesado. Havia, porém, dificuldades e também o desejo de encontrar outras oportunidades.

Mudança para Blumenau

Após a morte de Armindo, a família decidiu mudar-se para Blumenau. Pedro tinha 17 anos. A viagem foi feita em um caminhão “pau-de-arara”, como eram realizadas muitas mudanças naquela época. Outras famílias e seus poucos pertences seguiram no mesmo veículo. Os Rocha trouxeram até um pouco de lenha.

Sem recursos para comprar uma casa, alugaram uma pequena moradia de um conhecido que já vivia na cidade. Pedro logo começou a trabalhar. Seu salário ajudava a sustentar a mãe e os irmãos. Mais tarde, Domingos também conseguiu emprego, e as condições da família melhoraram.

Na nova comunidade, Pedro fez amigos. Os passeios e viagens de bicicleta, as sessões de cinema e as festas aconteciam dentro dos limites do dinheiro disponível. Seu jeito brincalhão aproximava as pessoas, em casa, entre os visitantes e no trabalho.

Casamento e vida profissional

Retrato de casamento de Pedro e Marta da Rocha
Pedro e Marta da Rocha no casamento, em 1958.

Pedro casou-se com Marta da Rocha em 1958. Tiveram três filhos: Marisa, Mauro e Marinho.

Na vida do casal, Pedro assumia principalmente a administração dos recursos financeiros; Marta mantinha vivos os sonhos e ajudava a transformá-los em realizações. Os dois eram cuidadosos com os gastos e se empenhavam em aumentar a renda. Marta costurava roupas para conhecidos. Pedro, além do emprego na indústria, fazia serviços de carpintaria e construção, conhecimentos que desenvolveu observando outros profissionais e experimentando o trabalho com as próprias mãos.

Essa parceria lhes permitiu conquistar cedo a independência financeira. O dinheiro, nas palavras de Pedro, era sempre muito “contadinho”: precisava bastar para uma mesa “farta”, as contas pagas e a tranquilidade de repousar sem dívidas. Quando possível, o casal também ajudava outras pessoas em momentos de dificuldade.

Ao longo da vida profissional, Pedro trabalhou em duas empresas. A primeira fabricava artefatos de madeira. A segunda foi a Cremer, onde permaneceu até se aposentar, atuando no beneficiamento de fios.

A primeira casa

A construção das casas da família ajuda a contar a história de Pedro e Marta. A primeira começou com um desafio: economizar para comprar um terreno enquanto ainda pagavam aluguel.

Nesse período, contaram com dona Maria Pinheiro, mãe de Marta, que morava com eles. Mulher perseverante, acostumada a administrar recursos escassos, ela se tornou a guardiã das pequenas sobras mensais. Pedro dizia que dona Maria serviu de “banco” para o casal. Pouco a pouco, conseguiram reunir o dinheiro necessário para comprar um terreno mais afastado, com certo declive, mas capaz de acolher o sonho da casa própria.

A construção foi feita por etapas. Primeiro veio uma meia-água; depois, a ampliação. Pedro transportava materiais de bicicleta e trabalhava na obra durante as folgas e após o expediente. Marta participava com o mesmo comprometimento, tanto nas decisões da casa quanto no esforço para reunir recursos.

A mudança aconteceu em 1961. Foram morar ali Pedro, Marta, a pequena Marisa, então com cerca de um ano, e dona Maria. Com o tempo, fizeram melhorias que trouxeram mais conforto. Foi nessa casa que nasceram Mauro e Marinho.

A segunda casa

À medida que os filhos cresciam, Pedro e Marta passaram a desejar uma casa mais próxima da escola, da igreja, das mercearias e do trabalho. Era também uma forma de reduzir as longas caminhadas da família.

Repetiram a estratégia que havia dado certo: o salário mensal de Pedro, os serviços feitos nas horas livres, o trabalho de Marta e a atenção constante aos gastos. Conseguiram adquirir um terreno plano em um bairro mais próximo do centro de Blumenau. Para prepará-lo, foi necessário fazer um aterro, realizado com carroças e cavalos.

Pedro conseguiu a madeira e a construção da nova casa em troca da primeira moradia do casal. A família mudou-se no fim de 1967, antes que tudo estivesse concluído. Como havia acontecido na casa anterior, os cômodos e acabamentos foram sendo terminados aos poucos, enquanto a vida já seguia dentro dela.

Poucos meses depois da mudança, dona Maria faleceu. Sua presença, seus ensinamentos e a ajuda decisiva na conquista da primeira casa permaneceram na memória da família.

A terceira casa

A família morava em um bom lugar, com acesso aos serviços de que precisava. Havia, porém, uma preocupação: as cheias do rio Itajaí-Açu. A casa nunca havia sido alagada, mas Pedro e Marta começaram a observar a possibilidade de se mudar para outro lugar que lhes oferecesse condições semelhantes e maior tranquilidade.

Pedro continuava trabalhando na empresa. Marta e os filhos cuidavam das atividades da casa e contribuíam, cada um a seu modo, para a renda familiar. Certo dia, em conversa com a médica da empresa, Pedro soube que ela desejava vender um terreno. Ficou entusiasmado e foi conhecê-lo com a família.

O terreno ficava relativamente perto, numa região que eles ainda não conheciam bem. As casas eram maiores, os carros pareciam mais caros. À primeira vista, o lugar estava acima das expectativas e das possibilidades financeiras da família. Até então, não havia feito parte de seus sonhos.

Mas a visita deixou uma ideia. Conversaram sobre o terreno, imaginaram as melhorias que poderiam fazer e a segurança que teriam diante de uma enchente maior. Aos poucos, aquilo que parecia distante começou a se tornar uma possibilidade.

Os recursos da família sempre haviam sido contados, embora suficientes para uma vida digna. Aos domingos, podiam passear no Passat 75, o carro que Pedro comprara por inspiração do cunhado Ivo. Cabe aqui um parêntese: Ivo e sua esposa, Tereza, conforme progrediam na vida, incentivavam Pedro e Marta a conquistar condições semelhantes. Foi assim com a compra de um fogão a gás maior, da primeira geladeira e de outros recursos para a casa.

Voltando ao terreno, a decisão exigiu muitas conversas. Ainda pagavam as parcelas do carro, e a nova construção parecia um desafio maior que os anteriores. Também se perguntavam se conseguiriam se adaptar àquele ambiente. Ao mesmo tempo, todos admitiam que seria muito bom morar ali.

Mais uma vez, resolveram tentar. Venderam a casa, compraram o terreno e começaram a construir, o ano era 1978.

Como nas mudanças anteriores, a família entrou na nova casa antes que ela estivesse pronta. O acabamento ficou por conta de Pedro e dos filhos rapazes, avançando conforme sobravam recursos e havia tempo para trabalhar na obra.

Foi uma boa temporada para a família. Os filhos já trabalhavam, a renda mensal havia crescido e todos podiam contribuir para um objetivo comum. Pedro e Marta ainda se lembram daquele período como um tempo de conquistas, alcançadas com a dedicação de cada um.

A quarta casa

Às vezes, a inspiração nos leva a mudar. Outras vezes, é a própria vida que nos empurra. Foi assim com a quarta casa de Pedro e Marta.

Em 1983, Pedro já estava aposentado. A família vivia com mais tranquilidade na casa que tanto havia desejado. Aquele, porém, foi um ano de muitas chuvas. O rio subia, dava seu recado e depois recuava. Até que, em julho, suas águas alcançaram um nível que a família ainda não havia enfrentado naquela casa.

Pedro e os demais levantaram os móveis e retiraram as portas, tentando proteger o que podiam. Não foi suficiente. A enchente permaneceu por alguns dias e houve perdas de mobília.

Durante uma das travessias de canoa, Pedro comentou que desejava vender a casa. Encontrou uma interessada. De repente, a família estava diante de outra mudança, desta vez provocada por uma necessidade que já não podia ignorar.

Naquele ano, Pedro e Marta haviam começado a construir a casa de um dos filhos. Decidiram acelerar a obra para que a família pudesse se mudar para lá. O filho pagaria pela casa nos anos seguintes.

Nesse meio-tempo, o terreno ao lado foi colocado à venda, e Pedro conseguiu comprá-lo. Era bem mais distante do centro da cidade, mas ficava numa elevação, sem o mesmo receio das cheias. Dali se tinha uma vista ampla, que alcançava o horizonte.

Pedro e Marta, já aposentados, dedicaram-se à construção. Em 1987, mudaram-se para a nova casa e se tornaram vizinhos de um dos filhos. Foi a última aventura do casal na construção da própria moradia. E, pela primeira vez, entraram numa casa concluída: paredes pintadas, piso revestido e móveis em seus lugares.

Laços familiares

Pedro cultivou relações próximas com os familiares de Marta. Entre os cunhados, manteve especial amizade e admiração por Ivo Bonfanti, falecido em 2025.

Sua história também se reconhece nesses vínculos: no trabalho compartilhado com Domingos, na proximidade de Augusta, na parceria construída com Marta e na família que ambos formaram. As casas são marcos visíveis desse percurso. Em cada uma delas ficaram as marcas de uma vida feita com recursos contados, muitas horas de trabalho e a disposição de construir, passo a passo, um lugar para os seus.

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