Pedro da Rocha (Brusque, 1940) nasceu em uma comunidade agrícola do interior de Santa Catarina. Ainda criança, começou a trabalhar na lavoura com a família. Aos 17 anos, após a morte do pai, mudou-se para Blumenau, cidade onde constituiu família com Marta da Rocha e passou a maior parte da vida.
Trabalhou inicialmente em uma empresa de artefatos de madeira e, depois, na Cremer, onde atuou no beneficiamento de fios até a aposentadoria. Fora das fábricas, aprendeu pela observação a trabalhar com carpintaria e construção. Com Marta, ergueu as casas em que a família viveu e criou os três filhos: Marisa, Mauro e Marinho.
De Armindo, Pedro reconhece a importância de fazer bem-feito cada trabalho, fosse a afiação de uma ferramenta, fosse o plantio e o cuidado com a roça. De Dealtina, recebeu os princípios da religião católica e a disposição para ajudar e trabalhar em conjunto. Ambos participaram da formação dos valores que Pedro levou para a vida e para seus relacionamentos.
Augusta esteve sempre muito próxima, ocupando, de certo modo, o lugar de uma segunda mãe. Maria saiu cedo de casa para trabalhar em residências, primeiro no interior e, mais tarde, em Blumenau. Domingos tornou-se um de seus grandes amigos e companheiro em muitas lembranças da juventude.
Pedro sempre valorizou a convivência familiar, fazendo dos cunhados verdadeiros irmãos. José Emílio, casado com sua irmã Augusta, foi uma dessas pessoas queridas. Esteve presente em muitas histórias da vida de Pedro no interior. Durante o período em que Augusta e José Emílio moraram em Navegantes, os dois cunhados chegaram a ir juntos a Itajaí, cidade vizinha, para vender o que tinham e trazer mantimentos para casa. Essas viagens fazem parte das lembranças que Pedro ainda gosta de contar.
No campo, o trabalho dos filhos começava cedo. Em uma família com poucos recursos, cada ajuda tinha valor. Pedro participava do plantio, do cultivo e da colheita. Entre as histórias que gosta de contar está a da cana-de-açúcar: o corte, a carroça, os cavalos e o transporte até a usina. Domingos aparece muitas vezes nessas lembranças, dividindo com ele o esforço de gerar recursos para a alimentação da família e para o pagamento das terras arrendadas.
Pedro costuma dizer que a vida naquele tempo era boa. Fala do respeito e do carinho conquistados dos mais velhos, mesmo quando o trabalho era pesado. Havia, porém, dificuldades e também o desejo de encontrar outras oportunidades.
Mudança para Blumenau
Após a morte de Armindo, a família decidiu mudar-se para Blumenau. Pedro tinha 17 anos. A viagem foi feita em um caminhão “pau-de-arara”, como eram realizadas muitas mudanças naquela época. Outras famílias e seus poucos pertences seguiram no mesmo veículo. Os Rocha trouxeram até um pouco de lenha.
Sem recursos para comprar uma casa, alugaram uma pequena moradia de um conhecido que já vivia na cidade. Pedro logo começou a trabalhar. Seu salário ajudava a sustentar a mãe e os irmãos. Mais tarde, Domingos também conseguiu emprego, e as condições da família melhoraram.
Na nova comunidade, Pedro fez amigos. Os passeios e viagens de bicicleta, as sessões de cinema e as festas aconteciam dentro dos limites do dinheiro disponível. Seu jeito brincalhão aproximava as pessoas, em casa, entre os visitantes e no trabalho.
Casamento e vida profissional
Pedro e Marta da Rocha no casamento, em 1958.
Pedro casou-se com Marta da Rocha em 1958. Tiveram três filhos: Marisa, Mauro e Marinho.
Na vida do casal, Pedro assumia principalmente a administração dos recursos financeiros; Marta mantinha vivos os sonhos e ajudava a transformá-los em realizações. Os dois eram cuidadosos com os gastos e se empenhavam em aumentar a renda. Marta costurava roupas para conhecidos. Pedro, além do emprego na indústria, fazia serviços de carpintaria e construção, conhecimentos que desenvolveu observando outros profissionais e experimentando o trabalho com as próprias mãos.
Essa parceria lhes permitiu conquistar cedo a independência financeira. O dinheiro, nas palavras de Pedro, era sempre muito “contadinho”: precisava bastar para uma mesa “farta”, as contas pagas e a tranquilidade de repousar sem dívidas. Quando possível, o casal também ajudava outras pessoas em momentos de dificuldade.
Ao longo da vida profissional, Pedro trabalhou em duas empresas. A primeira fabricava artefatos de madeira. A segunda foi a Cremer, onde permaneceu até se aposentar, atuando no beneficiamento de fios.
A primeira casa
A construção das casas da família ajuda a contar a história de Pedro e Marta. A primeira começou com um desafio: economizar para comprar um terreno enquanto ainda pagavam aluguel.
Nesse período, contaram com dona Maria Pinheiro, mãe de Marta, que morava com eles. Mulher perseverante, acostumada a administrar recursos escassos, ela se tornou a guardiã das pequenas sobras mensais. Pedro dizia que dona Maria serviu de “banco” para o casal. Pouco a pouco, conseguiram reunir o dinheiro necessário para comprar um terreno mais afastado, com certo declive, mas capaz de acolher o sonho da casa própria.
A construção foi feita por etapas. Primeiro veio uma meia-água; depois, a ampliação. Pedro transportava materiais de bicicleta e trabalhava na obra durante as folgas e após o expediente. Marta participava com o mesmo comprometimento, tanto nas decisões da casa quanto no esforço para reunir recursos.
A mudança aconteceu em 1961. Foram morar ali Pedro, Marta, a pequena Marisa, então com cerca de um ano, e dona Maria. Com o tempo, fizeram melhorias que trouxeram mais conforto. Foi nessa casa que nasceram Mauro e Marinho.
A segunda casa
À medida que os filhos cresciam, Pedro e Marta passaram a desejar uma casa mais próxima da escola, da igreja, das mercearias e do trabalho. Era também uma forma de reduzir as longas caminhadas da família.
Repetiram a estratégia que havia dado certo: o salário mensal de Pedro, os serviços feitos nas horas livres, o trabalho de Marta e a atenção constante aos gastos. Conseguiram adquirir um terreno plano em um bairro mais próximo do centro de Blumenau. Para prepará-lo, foi necessário fazer um aterro, realizado com carroças e cavalos.
Pedro conseguiu a madeira e a construção da nova casa em troca da primeira moradia do casal. A família mudou-se no fim de 1967, antes que tudo estivesse concluído. Como havia acontecido na casa anterior, os cômodos e acabamentos foram sendo terminados aos poucos, enquanto a vida já seguia dentro dela.
Poucos meses depois da mudança, dona Maria faleceu. Sua presença, seus ensinamentos e a ajuda decisiva na conquista da primeira casa permaneceram na memória da família.
A terceira casa
A família morava em um bom lugar, com acesso aos serviços de que precisava. Havia, porém, uma preocupação: as cheias do rio Itajaí-Açu. A casa nunca havia sido alagada, mas Pedro e Marta começaram a observar a possibilidade de se mudar para outro lugar que lhes oferecesse condições semelhantes e maior tranquilidade.
Pedro continuava trabalhando na empresa. Marta e os filhos cuidavam das atividades da casa e contribuíam, cada um a seu modo, para a renda familiar. Certo dia, em conversa com a médica da empresa, Pedro soube que ela desejava vender um terreno. Ficou entusiasmado e foi conhecê-lo com a família.
O terreno ficava relativamente perto, numa região que eles ainda não conheciam bem. As casas eram maiores, os carros pareciam mais caros. À primeira vista, o lugar estava acima das expectativas e das possibilidades financeiras da família. Até então, não havia feito parte de seus sonhos.
Mas a visita deixou uma ideia. Conversaram sobre o terreno, imaginaram as melhorias que poderiam fazer e a segurança que teriam diante de uma enchente maior. Aos poucos, aquilo que parecia distante começou a se tornar uma possibilidade.
Os recursos da família sempre haviam sido contados, embora suficientes para uma vida digna. Aos domingos, podiam passear no Passat 75, o carro que Pedro comprara por inspiração do cunhado Ivo. Cabe aqui um parêntese: Ivo e sua esposa, Tereza, conforme progrediam na vida, incentivavam Pedro e Marta a conquistar condições semelhantes. Foi assim com a compra de um fogão a gás maior, da primeira geladeira e de outros recursos para a casa.
Voltando ao terreno, a decisão exigiu muitas conversas. Ainda pagavam as parcelas do carro, e a nova construção parecia um desafio maior que os anteriores. Também se perguntavam se conseguiriam se adaptar àquele ambiente. Ao mesmo tempo, todos admitiam que seria muito bom morar ali.
Mais uma vez, resolveram tentar. Venderam a casa, compraram o terreno e começaram a construir, o ano era 1978.
Como nas mudanças anteriores, a família entrou na nova casa antes que ela estivesse pronta. O acabamento ficou por conta de Pedro e dos filhos rapazes, avançando conforme sobravam recursos e havia tempo para trabalhar na obra.
Foi uma boa temporada para a família. Os filhos já trabalhavam, a renda mensal havia crescido e todos podiam contribuir para um objetivo comum. Pedro e Marta ainda se lembram daquele período como um tempo de conquistas, alcançadas com a dedicação de cada um.
A quarta casa
Às vezes, a inspiração nos leva a mudar. Outras vezes, é a própria vida que nos empurra. Foi assim com a quarta casa de Pedro e Marta.
Em 1983, Pedro já estava aposentado. A família vivia com mais tranquilidade na casa que tanto havia desejado. Aquele, porém, foi um ano de muitas chuvas. O rio subia, dava seu recado e depois recuava. Até que, em julho, suas águas alcançaram um nível que a família ainda não havia enfrentado naquela casa.
Pedro e os demais levantaram os móveis e retiraram as portas, tentando proteger o que podiam. Não foi suficiente. A enchente permaneceu por alguns dias e houve perdas de mobília.
Durante uma das travessias de canoa, Pedro comentou que desejava vender a casa. Encontrou uma interessada. De repente, a família estava diante de outra mudança, desta vez provocada por uma necessidade que já não podia ignorar.
Naquele ano, Pedro e Marta haviam começado a construir a casa de um dos filhos. Decidiram acelerar a obra para que a família pudesse se mudar para lá. O filho pagaria pela casa nos anos seguintes.
Nesse meio-tempo, o terreno ao lado foi colocado à venda, e Pedro conseguiu comprá-lo. Era bem mais distante do centro da cidade, mas ficava numa elevação, sem o mesmo receio das cheias. Dali se tinha uma vista ampla, que alcançava o horizonte.
Pedro e Marta, já aposentados, dedicaram-se à construção. Em 1987, mudaram-se para a nova casa e se tornaram vizinhos de um dos filhos. Foi a última aventura do casal na construção da própria moradia. E, pela primeira vez, entraram numa casa concluída: paredes pintadas, piso revestido e móveis em seus lugares.
Laços familiares
Pedro cultivou relações próximas com os familiares de Marta. Entre os cunhados, manteve especial amizade e admiração por Ivo Bonfanti, falecido em 2025.
Sua história também se reconhece nesses vínculos: no trabalho compartilhado com Domingos, na proximidade de Augusta, na parceria construída com Marta e na família que ambos formaram. As casas são marcos visíveis desse percurso. Em cada uma delas ficaram as marcas de uma vida feita com recursos contados, muitas horas de trabalho e a disposição de construir, passo a passo, um lugar para os seus.
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Numa de nossas viagens à casa da tia Augusta e do tio Zeca, o pai resolveu trazer três filhotes de jacaré.
Fomos num sábado. Depois do almoço de domingo, ele e a tia entraram “mato adentro”, em direção a uma lagoa tomada pela relva baixa. Nós, as crianças, ficamos esperando, apreensivos, conforme as ordens dos dois.
O pai dizia que jacarés eram animais perigosos. Se alguém mexesse com os filhotes, corria o risco de perder um braço ou uma perna. Enquanto aguardávamos, conversei com minhas priminhas Célia, Rosa e Zenaide, mas não conseguia parar de pensar nele. O pai já tinha um dedo a menos. Imaginei que pudesse voltar sem uma mão inteira. Se isso acontecesse, pensava eu, que ao menos fosse a mão do dedo cortado: assim perderia menos.
Passado algum tempo, os dois irmãos retornaram com os filhotes dentro de um balaio. Os bichinhos abriam a boca e faziam um barulhinho, como se dissessem: “Cuidado, meu amigo, ou eu te dou uma mordida”.
A casa dos tios ficava a uma boa distância da estrada. No decorrer da tarde, todos nos acompanharam até o ponto do ônibus. Caminhamos por um pequeno corredor de areia e barro, cercado por um gramado, um pastinho típico daquela região do interior de Navegantes. Nós, as crianças, fomos cantando.
Quando o ônibus chegou, o pai e eu embarcamos. Lá dentro havia um cheiro de óleo, usado no piso, misturado com poeira. Olhei pela janela para me despedir e vi a tia de olhos cheios de lágrimas. O tio também estava emocionado. Os dois sempre sofriam nas despedidas. Pensei comigo: “Ah, se vocês soubessem... Por mim, levaria todos com a gente”.
Hoje penso: se alguém nos dissesse naquela época que, um dia, a maioria de nós teria carro para passear, mas as visitas se tornariam raras, certamente não acreditaríamos. Eram tão bons aqueles encontros. O tempo passou, as visitas ralearam e quase não nos encontramos mais.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembrança situada em meados de 1968.
Tempos difíceisc. 1970
A vida na cidade tem suas dificuldades. Mas, quando se tem um emprego, ao fim do mês chega o salário. Mesmo pequeno, ele ajuda a sustentar a família.
No campo, a vida é mais incerta. Há anos em que chove o suficiente e a colheita é boa. Em outros, a seca ou o excesso de chuva coloca tudo a perder.
Numa dessas épocas difíceis, meu pai conversou com o tio Zeca e a tia Augusta sobre a possibilidade de tentarem a vida em Blumenau. Eles vieram com as crianças e ficaram algumas semanas na casa da Dindinha, nossa avó por parte de pai.
Fiquei contente. Pensei que poderíamos nos visitar mais vezes e brincar com os primos. Na verdade, eu gostaria que morassem conosco. Hoje percebo que não haveria lugar para todos: já éramos cinco numa casa pequena.
Na casa da Dindinha, aconteceu uma história que o tio Zeca contaria depois, sem perder o bom humor. Certa vez, foi abastecer o isqueiro que usava para acender o cachimbo. Encontrou um litro guardado no sótão e colocou um pouco do líquido no isqueiro. Ao molhar a mão e sentir o cheiro, descobriu que não era gasolina. Era xixi do tio Luiz, irmão da tia Augusta. Num dia de chuva, para não precisar ir até a casinha que servia de banheiro, fora da residência, Luiz havia usado o litro, guardado no sótão e se esquecido dele.
O tio Zeca contava a história do “malvado” cunhado, que, sem querer, lhe pregara uma peça. Não parecia chateado.
Hoje penso que talvez devêssemos conservar mais vezes esse bom humor diante dos pequenos contratempos da vida. Nem sempre é fácil. Mas o tio conseguia contar o episódio de um jeito que nos fazia rir junto com ele.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembrança situada em meados de 1970.
Uma carne pra lá de diferentec. 1970
Quando os recursos eram poucos e a fome rondava o estômago, ouvíamos os mais velhos dizer que eram “as tripas grossas comendo as mais finas”.
Durante as semanas em que o tio Zeca e a tia Augusta moraram em Blumenau, meu pai e eu fomos a um matadouro comprar uma carne mais acessível.
O cheiro do lugar não era agradável. Misturava carne, sangue e o odor do couro dos animais. Vi um homem abater um boi. O animal caiu de joelhos e, depois, ficou estendido sobre o piso molhado. Eu tinha cerca de oito anos e aquela cena me impressionou.
O curioso veio na volta. O pai havia comprado justamente a cabeça do boi. Seguimos de bicicleta pelas ruas: um trecho de barro, outro de asfalto, outro ainda de pedras. A cabeça viajava no bagageiro.
Pelo caminho, o pai comentou que o boi, ou melhor, a cabeça dele, certamente vinha mostrando a língua às pessoas por quem passávamos. O pai sempre teve esse jeito de encontrar uma graça nas situações. A história da cabeça que mostrava a língua permaneceu por muito tempo em seu repertório.
Hoje penso que a vida tem momentos difíceis, alguns deles bastante concretos. Ainda assim, o pai encontrava uma maneira de nos fazer sorrir no caminho de volta para casa.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembrança situada em meados de 1970.
Para mudar um hábito, é preciso tempoc. 1970
Ainda nos dias em que moraram em Blumenau, o tio Zeca soube de uma oportunidade de trabalho, penso que no SENAI. Era uma vaga de vigia noturno, com salário razoável. Havia outros candidatos, mas valia a pena tentar.
No interior, era costume acordar cedo e dormir cedo. Passar a noite acordado seria um desafio. O tio não queria conseguir a vaga e depois falhar por causa do sono. Então começou a se preparar.
Numa tarde, fomos visitar a Dindinha. O tio Luiz e a família da tia Augusta também estavam morando naquela casa de madeira, construída num terreno abaixo do nível da rua. Uma pequena passagem ligava a rua à casa, vencendo o barranco.
Durante a conversa, meus pais perguntaram pelo tio Zeca.
— Ele está dormindo — respondeu a tia Augusta. — Tem dormido durante o dia e ficado acordado à noite para se acostumar ao trabalho que espera conseguir.
Pronto: lá estava meu pai diante de mais uma história. Contava a preparação antecipada do tio de um jeito que fazia as pessoas chorarem de rir, inclusive o próprio Zeca.
Hoje penso na disposição daquele homem. Ele ainda não sabia se teria o emprego, mas já tentava se tornar capaz de exercê-lo. O pai via graça na situação, e havia mesmo. Havia também o esforço de quem desejava melhorar a vida e compreendia que, para isso, talvez precisasse mudar um hábito antigo.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembrança situada em meados de 1970.
As corujas assadas em folha de bananeirac. 1975
Quando penso na casa dos tios, ainda me parece sentir o cheiro do polvilho molhado e das roscas saindo do forno.
Com o tempo, o pai conseguiu comprar um carro e nossas visitas à casa do tio Zeca e da tia Augusta se tornaram mais frequentes. Íamos pela manhã e voltávamos no fim do dia.
Minha mãe sempre teve a tia Augusta como uma irmã. Tenho a impressão de que o sentimento era recíproco. Quando se encontravam, conversavam muito enquanto preparavam a comida, com a ajuda das moças da casa.
À mesa havia aipim, batatas, macarrão, arroz e carne com molho, fosse de galinha ou de boi. Tudo feito no fogão a lenha, devagar, acrescentando água aos poucos até o molho ficar escuro e saboroso.
Depois do almoço, as duas cunhadas raramente paravam. Muitas vezes faziam pão caseiro ou coruja, uma rosca de polvilho. Umas iam buscar folhas de bananeira; outras preparavam a massa. A conversa continuava enquanto cada uma fazia sua parte.
Então chegava o café da tarde, e com ele a melhor parte para nós: provar o que haviam preparado.
Hoje penso que precisávamos de pouco para viver aqueles momentos tão bons. Havia trabalho, mas ele era compartilhado. Enquanto as mãos se ocupavam da comida, a conversa e a estima mantinham todos por perto.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembrança situada em meados de 1975.
As festas em alto estilodécada de 1970
O tio Zeca e a tia Augusta sempre enfrentaram muito trabalho para criar os filhos e seguir em frente. As dificuldades não impediam que comemorassem os acontecimentos importantes.
Um batizado merecia uma festa. Um casamento, então, exigia uma festa ainda maior. Os tios convidavam parentes e vizinhos queridos. Ao lado da casa, o tio esticava uma lona sobre uma grande mesa. Perto dela ficava a grelha onde se assava a carne.
Serviam gasosa, como chamávamos o refrigerante, nos sabores de framboesa, limão e laranja, se bem me lembro. Havia também cerveja e alguma bebida mais forte para quem apreciasse.
O tio não era, pelo que pude observar, um homem de bebida. Não me recordo de vê-lo sequer alterado. Penso que talvez nem tomasse cerveja. Gostava, porém, de rir quando alguém, depois de um copo a mais, começava a “falar pelos cotovelos”.
Desde criança eu conhecia, ao menos em parte, os desafios daqueles tios tão queridos. Também via o prazer que sentiam em reunir as pessoas em volta da mesa e encher a casa de gente. As festas pareciam ser, para eles, uma maneira de agradecer pela vida e dividir seus acontecimentos com quem amavam.
Talvez quisessem nos ensinar um jeito de viver. Eu não sei. Mas, sempre que me reúno com a família, lembro do brilho nos olhos deles, da alegria dos abraços e das lágrimas nas despedidas. Se pudessem, penso que teriam feito da vida uma festa comprida, com lugar para muitos convidados.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembranças situadas aproximadamente na década de 1970.
Vender coisas e comprar mantimentosc. 1955
Das pessoas engraçadas, guardamos muitas histórias. Talvez porque uma anedota contada várias vezes acabe gravando em nossa memória até os detalhes da travessura. É por isso, penso, que tenho tantas histórias de meu pai.
Uma delas aconteceu com o tio Zeca. Os dois cunhados reuniram algumas coisas para vender em Itajaí e, na manhã seguinte, saíram cedo pela estrada. O dinheiro das vendas, muito contado, serviria para comprar mantimentos e abastecer por alguns dias o armário de casa.
Para facilitar o transporte das compras na volta, usaram um bambu apoiado nos ombros, com os produtos pendurados entre os dois. Seguiam um atrás do outro.
Entre as compras havia fressura, as vísceras do boi. Eles diziam “fersura”. Pelo caminho, segundo contava o pai, o cheiro se espalhava longe. Dois urubus apareceram e passaram a acompanhá-los. O tio tentava espantá-los com o chapéu de palha, sem sucesso.
Na versão que meu pai gostava de contar, um urubu acabou pousando no ombro de Zeca e o outro no dele. Os dois homens, já cansados da caminhada, ainda tiveram de suportar os pássaros e a sujeira que deixavam nas camisas. O sol estava forte, o cheiro também, e foi um alívio avistar a porteira: haviam chegado.
Meu pai e o tio Zeca mantiveram uma relação de respeito e grande afinidade. Sempre admirei a amizade daqueles dois cunhados.
Imagino que tenham saído de casa depois de um café simples e atravessado muitos quilômetros com pouco para comer. Era a condição daquele momento. Não sabiam que o caminho de volta se tornaria uma história repetida por tantos anos. Talvez eu tenha aprendido algo com eles: às vezes, em meio a uma dificuldade, já começo a imaginar como vou contá-la depois.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. História contada por Pedro, situada aproximadamente em meados de 1955.
Que cheiro de linguicinhac. 1989
Não sei se o pai já contou esta história. Penso que não ficará chateado comigo, porque ele mesmo ria muito ao lembrá-la.
Segundo ele, num domingo, meus pais sentiram saudade do tio Zeca e da tia Augusta e resolveram visitá-los. No caminho, pararam numa lanchonete à beira da estrada para comer. Chegariam depois do almoço e não queriam dar trabalho à tia.
Naquele tempo, a casa dos tios ficava no meio de um grande pasto, com uma área de árvores ao fundo. Era domingo, e havia filhos, netos, genros e futuros genros por lá. Quando meus pais chegaram, todos logo começaram a conversar. Alguns estavam à mesa; outros, em cadeiras mais afastadas. As histórias corriam de um lado para o outro.
Meu pai, discretamente, arrotou uma ou duas vezes. Em certo momento, uma das crianças comentou:
— Que cheiro de linguicinha!
Ao me contar o episódio, o pai ria e dizia que não explicou de onde vinha o cheiro. Apenas concordou que realmente havia cheiro de linguicinha. Depois confessou ter sentido pena de não levar ao menos uma para cada um.
Hoje penso naquela mistura de graça e cuidado. Para nós, um lanche no caminho podia parecer coisa pequena. Para quem estava reunido naquela casa, uma linguicinha repartida talvez tivesse sido uma alegria. Meu pai percebeu isso, mesmo enquanto ria da história.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. História contada por Pedro, situada aproximadamente em meados de 1989.
Os passeios de carroça no pasto
As crianças são incríveis. Está bem: naquela época eu já não era tão criança. Talvez fosse um marmanjão crescido o suficiente para puxar uma carroça no lugar do cavalo.
Sempre gostei de estar com meus primos. Numa das visitas à casa dos tios, todos embarcaram na carroça e lá fui eu, fazendo força para puxá-los pelo pasto. Era uma festa, que seguia até o cansaço me alcançar. As crianças subiam, acomodavam-se no fundo e riam sem parar. O tio, a tia, meus pais e os outros adultos que estivessem por perto se divertiam assistindo.
Eu também me divertia. Mas, em alguns momentos, olhava para as horas e pensava que logo teríamos de ir embora. Naquele tempo, a vida dos meus primos me parecia muito boa: moravam num lugar bonito e tinham todo aquele espaço para brincar.
Muitos anos depois, nos reunimos na casa da Glorinha. Estava presente boa parte da família, ao menos os parentes mais próximos. Durante a conversa, Verônica lembrou da carroça e das festas que inventávamos. Falou da alegria das nossas visitas, mas também das dificuldades de viver naquele lugar. Entendi que, para ela, a vida hoje é mais fácil do que era naquele tempo.
Fiquei pensando na diferença entre visitar uma casa aos domingos e viver nela todos os dias. Eu via o pasto, a carroça, os primos e a liberdade das brincadeiras. Os adultos conheciam também o peso do trabalho e das preocupações.
Talvez não seja possível viver todos os dias como se fossem domingo. Ainda assim, gosto de pensar que podemos levar um pouco daquele espírito para os dias comuns: mais sorrisos, mais graça e mais disposição de ajudar uns aos outros.
Contribuição de Mauro da Rocha, sobrinho. Lembrança de infância retomada em uma reunião posterior da família.